A MINHA IDA À REVOLUÇÃO DE ABRIL.

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Nessa noite, na véspera da revolução, parti de Olhão no comboio para Lisboa que naquele tempo só chegava ao Barreiro. Atravessei o Tejo de barco até ao Terreiro do Paço e dirigi-me para o Cais do Sodré onde teria que apanhar o comboio para o Estoril onde tínhamos familiares. Levei comigo a minha mulher e o meu filho que fazia 5 anos precisamente no dia 25 de Abril. Obrigou-me a levá-lo comigo porque nunca tinha visto um elétrico e queria andar num, no dia dos seus anos. Como eu tinha que ir a Lisboa tratar de um assunto ele colou-se a mim de tal maneira que não havia como dizer não, ainda por mais, era o dia dos seus anos. Quando estávamos atravessando a Av. Ribeira das Naus vimos um movimento de ‘chaimites’ colocando-se em posição. Já não sei dizer a hora, mas passava muito da meia-noite. Fomos à nossa vida pensando no que seria que se estava passando pois não era habitual a movimentação de tropas àquela hora e naquele local. Lembro-me de pensar que talvez houvesse algum evento de manhã e que se estariam preparando. Na manhã seguinte voltei a Lisboa para tratar do meu assunto e trouxe o meu filho comigo para ele poder andar de elétrico, tanto mais que eu ia para Alcântara e para lá chegar teria mesmo que apanhar o elétrico. Apanhámos o elétrico e como a criança ia tão contente eu nem me apercebi de que alguma coisa se passava. Só depois de chegar ao meu destino é que dei conta da real situação.

Consegui chegar a tempo ao local onde ia tratar do tal assunto mesmo por um triz, pois estavam fechando os escritórios da empresa e não me queriam atender e eu ainda não tinha entendido porquê, e lá tive que insistir explicando que vinha de propósito do Algarve para ser atendido. Lá me atenderam de muito má vontade mas acabei por resolver o assunto e foi então que me dei conta do que estava a acontecer. Ao mesmo tempo que me atendia, o empregado do escritório não parava de prestar atenção às notícias transmitidas por um pequeno ‘transistor’ (nome que naquele tempo de davam aos rádios portáteis, muito em voga) onde pediam à população para se manterem em casa, que fechassem todas as atividades, regressassem a casa e esperassem por notícias que iam sendo transmitidas pelos elementos da Junta de Salvação Nacional. 

Ao sair dos escritórios da empresa chego à rua e toda a cidade estava parada. Não havia transportes, não havia telefones e eu vejo-me no meio da rua com uma criança sem saber o que fazer e sem saber para onde ir. A minha vontade era correr para o Largo do Carmo, pois pelas notícias que ia ouvindo era lá que tudo se passava. De repente dou conta que toda a gente tinha um pequeno ‘transistor’ na mão por isso não precisava de perguntar o que se ia passando, bastava parar ao lado de alguém que logo me ia inteirando dos acontecimentos. E depressa me apercebi de que nada íamos sabendo porque os ‘comunicados à população’ não paravam mas também não diziam nada de novo. Eu não me podia ir meter no meio do que quer que fosse, que eu nem sequer sabia o que era, com uma criança a reboque, embora vontade não me faltasse. Nesta altura, as pessoas ainda estavam muito aparvalhadas, sem saberem que reação tomar, pois ainda não acreditavam no que estavam ouvindo. E tinham medo. Medo que tudo terminasse. Que o Governo conseguisse tomar conta da situação. Se isso acontecesse, tudo voltaria ao normal, às repressões, às prisões e tudo o mais que era o pão nosso de cada dia. Quando nos aproximávamos de alguém para ouvir as noticias, éramos sempre olhados de lado. Não estávamos nada habituados a confraternizar no meio da rua, porque naquele tempo vigorava uma Lei que dizia: Mais que duas pessoas juntas era considerado uma reunião, e as reuniões eram proibidas. Por isso todos olhavam de lado para todos, desconfiados. Estávamos habituados aos agentes da PIDE por todo o lado, embora nunca os víssemos. E também os ‘bufos’ que eram mais que muitos. Estes eram ainda piores, porque estavam sempre ao nosso lado, mas também não eram visíveis.
Resolvi então voltar para a estação do Cais do Sodre, apanhar o comboio e voltar para casa. E só havia uma maneira: ir a pé. Como é que se explica a uma criança de 5 anos que estamos metidos no meio de uma revolução? Pelo caminho tentei inventar tudo e mais alguma coisa para o entreter a ele e a mim também. Não foi fácil aquela caminhada. Ele queria um elétrico para voltar a andar mas não se via qualquer tipo de transporte público e muito poucos carros na rua. Até andar a pé no meio da rua não era nada confortável.
Não sei como mas consegui voltar para o Estoril e ao chegar a casa toda a gente estava em pânico sem saberem nada de nós.
Depois disto vieram anos muito difíceis, de tantas esperanças e de tantas asneiras que ainda hoje não recuperámos totalmente.

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