A OUTRA HISTÓRIA DA CASA PIA:

A OUTRA HISTÓRIA DA CASA PIA – A História
da Casa Pia já toda a gente conhece. Mencioná-la novamente seria demasiado
fastidioso para aqueles que já a conhecem de ginjeira. Outrora denominada Real
Casa Pia de Lisboa, foi fundada a 3 de Julho de 1780, pelo Intendente de
Policia Diogo Inácio de Pina Manique. Orientada para o acolhimento, educação,
ensino,  e integração social de crianças
e jovens com carências sociais, o seu principal objectivo foi combater a grande
instabilidade social provocada pelo terramoto de 1755. Este foi o grande
argumento de Pina Manique para convencer
a Rainha a dar a sua aprovação. Mas havia outra grande preocupação do
Intendente, esta mais do foro policial, que afinal era a sua especialidade. É
que na cidade de Lisboa, e também por todo o País, havia na altura grandes
quantidades de crianças que ficaram órfãs e abandonadas pela desgraça do
terramoto. Essas crianças circulavam pela cidade aterrorizando tudo e todos,
especialmente no intuito de angariar comida, como é lógico. É aqui que a
história começa. Consta-se que foram os nobres
de Lisboa que meteram na cabeça do Intendente as ideias que tinham para
se conseguirem ver livres desta canalha. O Intendente era a pessoa melhor
posicionada no Reino para conseguir a aprovação da Rainha pelo simples facto de
que ambos se reuniam periodicamente para tratar dos assuntos policiais da
cidade. Levou algum tempo mas ele conseguiu vergar o bondoso coração da Rainha.
Os nobres conseguiam assim matar dois coelhos de uma só cajadada. Primeiro
livravam-se da canalha que lhes davam muitas dores de cabeça e  segundo, conseguiam um local certo e limpo
para terem sempre os meninos à mão para as suas satisfações pessoais. Quando em
1805, o Intendente morreu, a Real Casa Pia entrou em declínio. Dizem que foi
pelo facto das tropas francesas de Junot terem ocupado o Castelo de S. Jorge,
onde então estava funcionando o asilo. É provável que tenha sido assim, mas
segundo as más línguas, houve outra razão. Os nobres, que financiavam a
instituição, deixaram de o fazer por estes dois motivos. Faltava-lhes a
protecção do Intendente que era o pior de tudo. Mas os nobres não desistiram.
Apelaram à Igreja e a Casa Pia voltou a abrir, desta feita no Convento do
Desterro e, melhor ainda, apenas com o carácter de asilo de infância. Em 1833,
corridos os franceses e no advento do governo liberal conseguiram mudar a Casa
Pia para o Mosteiro dos Jerónimos, sempre com a supervisão dos nobres. Hoje, já
quase não há nobres e os poucos que restam já não têm influência (ou têm?) na
Casa Pia. Durante todos os anos que estive na Casa Pia sempre  ouvi contar estas histórias que eram passadas
de boca em boca e sempre contadas às escondidas. É claro que tudo isto não está
escrito em lado nenhum. É claro que eu não posso afirmar nada do que aqui
menciono. Mas há uma coisa que eu posso afirmar porque passei por elas. Também
fui assediado e não foi pouco mas felizmente nunca fui violado. Lá dentro da
Casa Pia, ainda existem muitos “nobres” e tantos anos depois de eu ter saído,
as notícias chegaram (finalmente) aos jornais e aos tribunais. Mas se há coisas
que a vida me ensinou é que sempre houve “nobres” e continuará a haver pela
simples razão de que eles também fazem parte do sistema. E desta vez, quem se
lixa não vão ser os alunos violados, mas sim o mexilhão. E o mexilhão chama-se
Bibi (não que ele seja inocente). Todos os outros se vão safar. Só há uma
maneira de combater isto. É preciso que os alunos estejam muito bem informados.
Mas os anos vão passar. Todos se irão esquecer. E os “nobres” continuarão
atacando. Haverá maneira de dar a volta a isto?

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