DA CASA PIA PARA SANTA APOLÓNIA:

A GNR obrigou o General a mudar de caminho.

DA CASA PIA PARA SANTA APOLÓNIA COM HUMBERTO DELGADO – Estávamos no dia 16 de Maio de 1958. Faz hoje 53
anos. Em Lisboa falava-se muito dos Casamentos de Santo António, que neste ano
se iam realizar pela primeira vez. De uma só vez teríamos 26 casais a contrair
matrimónio, num evento inserido nas Festas da Cidade. Nunca tal se tinha visto,
todos juntos numa só igreja. Por isso o povo comentava. Mas isso seria só a 3
de Junho próximo. Hoje, iria acontecer um outro evento, talvez muito mais
importante. Algo que estava a mexer com o povo. Sentia-se no ar uma grande
agitação e nervosismo das pessoas, que não estavam habituadas a estas
liberdades. Na Estação de Santa Apolónia juntou-se o povo para esperar a
chegada do General Humberto Delgado, que vinha do Porto. Neste dia eu e mais
alguns colegas do Asilo D. Maria Pia, em Xabregas, resolvemos pular o muro.
Pular o muro era um grande divertimento para nós para depois procurarmos outros
divertimentos nesta imensa cidade. A nossa intenção não era vir esperar o General.
Nós nem sequer sabíamos que ele existia. Mas ficámos a saber depois. Porque,
sem sabermos como, acabámos por chegar a Santa Apolónia muito aparvalhados por
ver tanta gente, coisa a que não estávamos habituados. Mas já sabíamos que onde
houvesse uma grande aglomeração de pessoas é porque havia festa. Todos nós já
sabíamos que, naquele tempo, não eram permitidas mais de 3 pessoas juntas.
Ainda por cima, a Cavalaria mostrava-se bastante nervosa. Apanhadas de surpresa
pelo levantamento espontâneo do entusiasmo popular por todo o País, o regime
tomou medidas de emergência destinadas a evitar mais demonstrações em Lisboa.
Assim, após a chegada de Delgado à Estação de Santa Apolónia, a 16 de Maio de
1958, as forças da Guarda Nacional Republicana e os agentes da PIDE exerceram
repressão sobre a população lisboeta que acorrera em massa para receber
Delgado. Eu estava lá. Ainda me lembro bem da forma como a Cavalaria carregava
sobre o povo. De tal forma o fizeram que esmagaram uma criança apanhada pelos
cavalos. A criança trazia uma lancheira que se espatifou pelo chão. Pelos vistos,
era uma criança-operária (naquele tempo as crianças trabalhavam) que ali foi
parar talvez levada pela curiosidade e pelo arrastar da multidão, tal como nós.
Foi mesmo ao pé de mim. O sangue jorrava em todas as direcções. O povo gritava.
Os cavaleiros rodopiavam os cavalos para evitar que o povo se acercasse do
cadáver da criança. Veio uma viatura que recolheu tudo num curto espaço de
tempo, sempre protegida pelos cavaleiros. Da mesma forma que apareceu, assim
desapareceu. Só as pessoas que estavam perto, como eu,  é que se aperceberam. O General chegou. O
carro onde ele entrou foi obrigado pela GNR a seguir por onde eles não queriam.
Esta Cavalaria da GNR já era bem conhecida por nós. Por duas vezes, durante
todos os anos que vivi na Casa Pia, eles entraram, no Maria Pia, para manter a
ordem e de espadas desembainhadas. Mas isso são outras histórias. Do que me
lembro muito bem é que no dia seguinte, Lisboa inteira, procurou nos jornais as
notícias do que vimos com os nossos olhos. Mas tudo foi abafado. Nada
transpirou. Mas a imprensa estrangeira, a partir deste momento começou a
dedicar mais atenção a Portugal, País habitualmente pacato. Só que, os
portugueses não liam os jornais estrangeiros. Ainda não havia TV e a Rádio, tal
como a imprensa eram religiosamente controlados pelo regime. Nada transpirava,
ou quase nada. Esta é uma pequena história de um homem que pagou com a vida a
ousadia de fazer frente a um regime ditatorial.

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