AS DIFERENÇAS NA CASA PIA:

O Brasão da Casa Pia que sempre conheci.

AS DIFERENÇAS NA CASA PIA – Ao entrarmos na Casa Pia, quando se era muito novo, de certeza que íamos parar ao Asilo Nun’Álvares. Foi o que me aconteceu a mim. Mas não podíamos estar aqui muitos anos. Eu estive lá uns 3 anos. Eu não me lembro das regras mas creio que o aluno ao fazer os 10 anos teria que ser mudado para outro asilo. As diferenças começavam aqui. Quem já tivesse a 4ª classe estava dentro da normalidade e portanto seria enviado para o Pina Manique. Quem não tivesse a 4ª classe aos 10 anos significava que estava atrasado e portanto seria recambiado para  o Maria Pia. Foi o que me aconteceu a mim. Eu lembro-me que o conceito de ‘atraso’, naquele tempo, não tinham nada a ver com as capacidades de aprendizagem de cada um. Não era levado em conta as dificuldades e os entraves da vida que o aluno teria para alcançar a 4ª classe aos 10 anos. Hoje todas as crianças entram para a escola aos 6 anos. Naquele tempo não era assim. Entrava-se quando se entrava e muitos nem sequer entravam. Além disso no Nun’Álvares pouca escola havia. Eu lembro-me que só no Maria Pia é que comecei de verdade a escola. Mas fui parar ao Maria Pia com muito desgosto meu e sempre tive uma grande dor de cotovelo por não ter ido para o Pina Manique. Mas porquê? Apesar de criança eu já sabia muito bem que a oportunidade de estudar só seria possível em Belém. É que havia, não sei se ainda há, uma grande diferença entre estes dois asilos, perdão, hoje diz-se colégios. Quem fosse para o Pina Manique podia tirar um curso ou seguir uma profissão mais liberal. No Maria Pia, depois da 4ª classe fizeram-me tirar um Curso em que andei 3 anos a que davam o nome de Curso Complementar Primário que ainda hoje estou para saber o que era e para que servia se nunca consegui que me dessem um papel onde este curso fosse mencionado e já nem falo em Diploma. Quanto às profissões eram todas aquelas que na gíria se diz ‘de ferrugem’. Serralheiro, pintor, padeiro, sapateiro, alfaiate, marceneiro e assim por diante. As profissões do Pina Manique eram muito mais refinadas. Também se constava e eu comprovei-o mais tarde que as condições de habitabilidade eram muito melhores no Pina Manique assim como a alimentação, o vestuário e calçado como ainda hoje podemos comprovar pelas fotografias de então. Eles usavam calças e nós sempre calções. Eles usavam sapatos e nós sempre sandálias. Até nas fardas havia algumas diferenças que nos invejavam. Quem pretendesse estudar mais, no Pina Manique era incentivado e ajudado, no  Maria Pia isso equivalia a levar uns bons tabefes… pelo atrevimento. Eu que o diga. Mas de tanto chatear, eu consegui tirar os meus frutos. Um belo dia, abriu em Lisboa a primeira Escola de Hotelaria a que se deu o nome de Alexandre de Almeida, grande hoteleiro. A Escola tinha uma certa dificuldade em arranjar alunos para poder funcionar. Havia um engenheiro que estava ligado à Escola e também à Casa Pia que resolveu o problema dizendo: Tenho mais de 600 alunos lá no Maria Pia que servem muito bem. Escolheu 11 e um deles era eu. E eu fui o único dos 11 que terminou o curso. Assim entrei na hotelaria e nem sequer sabia o que era um hotel ou um restaurante. Fui Chefe de Mesa durante mais de 40 anos, trabalhei em muito boa casa e durante 11 anos dei a volta ao Mundo trabalhando em barcos de cruzeiros. O caminho não foi fácil mas eu consegui vencer as diferenças. Chegando à reforma, chegou a altura de abrir a gaveta das recordações. Aprendo computadores só para matar o tempo. Entro no Facebook para tentar encontrar velhos companheiros e descubro que não existe nenhum. Porque será? Não existe nenhum, na página da Casa Pia de Lisboa no Facebook o que não quer dizer que não existam. O que acontece é que as diferenças existentes nos dois asilos matou todas as esperanças de vida dos que tiveram o azar de ter passado pelo Maria Pia. Naquele tempo éramos 600. Eu não sou assim tão velho, tenho 68 anos. Ainda deve haver muitos do meu tempo. O que acontece é que não devem ter tido a mesma sorte e oportunidade que eu tive, nem aquela que todos os meninos do Pina Manique tiveram. Embrenharam-se em profissões desgastantes e iletradas (um quinto, 18%, da população mundial está fora do seu alcance). Esta é que é a grande verdade. Toda a gente sabe que a grande maioria da população idosa é adversa às novas tecnologias e muito menos os que tiveram uma vida mais dura. Eles andam por aí, mas estou convencido de que jamais se mostrarão. A única hipótese é apelar aos seus descendentes. Estes fazem oitos no Facebook. Podiam ajudar. Por outro lado, também penso: não será melhor respeitar as suas privacidades?

 

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4 comentários (+add yours?)

  1. vasco sancho
    Maio 17, 2011 @ 16:11:22

    Olá amigo, não estás só.
    Tenho 49 anos e também sou ganso do Maria Pia e gostava de encontra os meus amigos.
    e um dia talvez lá leve os meus filhos, ao fim de 30 e tal anos deve estar irreconhecível.
    um abraço.
    Vasco Sancho

    Responder

  2. vpires
    Jul 07, 2011 @ 21:09:20

    Viva Casapiano,

    Não te conhecço, mas também para o caso não importa. Tal como referes no texto, as situações eram mesmo assim. Eu entrei com 4.ª classe feita, e fui direitinho para Pina Manique, o local dos “mais favorecidos”. Ainda conheci alguns que posteriormente forma transferidos para Maria Pia. Para estes o estigma era bem pesado, pois ficavam mracados como alunos pouco inteligentes ou mal comportados. Melhor ou pior todos sobrevivemos, em condições bem dificeis, inclusivé em Belém.
    Foram nesses momentos bem dificeis que se conheceu o que camaradagem e amizade, por parte de muitoa “gansos”.

    Saúde para ti, companheiro, e para todos os teus.

    Pires “Pina Manique”

    Responder

  3. vpires
    Jul 07, 2011 @ 21:11:34

    Desculpem algumas trocas de caracteres, que não é do acordo ortográfico.

    Responder

  4. Maria Luisa Soeiro
    Jul 17, 2011 @ 01:41:41

    Sou da Família Pina Manique e gostaria de receber uma foto verdadeira do Brazão dos Pina Manique. É possível?

    Agradece a vossa atençaõ Maria Luisa Soeiro, neta de Francisco Xavier de Pina Manique

    Responder

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